Uma das mais lindas histórias do futebol sul-americano chegou ao fim nesta terça-feira. O dia 06 de outubro de 2026 ficará, para sempre, marcado como a data em que Lionel Andrés Messi Cuccittini colocou um ponto final em sua trajetória pela seleção argentina.
Se antes havia alguma dúvida de quem era maior pela Argentina entre Messi e Maradona, hoje não há mais. Messi envelheceu como vinho e deixou para trás as lamúrias de uma trajetória que contou com frustrações, aposentadoria e vexames, mas que terminou com entrega, honra e glórias.
Aos 18 anos de idade, Messi já chamava a atenção no Barcelona e na Espanha, que quase foi sua casa não fosse por uma história envolvendo Marcelo Bielsa e um DVD do craque ainda nas categorias de base. No dia 16 de agosto de 2005 estreou profissionalmente pela Argentina sob o comando de José Pékerman. Entrou aos 19 minutos do segundo tempo e foi expulso aos 20.
O temperamento intenso do primeiro jogo logo deu espaço às magias e à habilidade vislumbrante de um baixinho canhoto. Marcou pela primeira vez em um amistoso contra a Croácia em março de 2006, em seu sexto jogo profissional pela seleção.
Jogou uma partida de Copa do Mundo pela primeira vez no mesmo ano, entrando do banco de reservas na goleada argentina contra Sérvia e Montenegro por 6 a 0. Foi uma espécie de 12º jogador na campanha que acabou precocemente nas oitavas, nos pênaltis contra o México.
Já efetivado como um craque mundial, pela magia feita no Barcelona entre 2006 e 2010, Leo trocou a camisa 19 pela camisa 10 na Copa de 2010. Já era titular e referência técnica. Foi treinado pelo ídolo e antecessor Maradona, mas viu sua equipe ser goleada nas quartas pela Alemanha. Terminou seu segundo Mundial com apenas uma assistência.
Messi estava cada vez mais maduro e empilhava sucesso pelo Barça. Tinha quatro Bolas de Ouro quando viajou ao Brasil para ser Messi em uma Copa do Mundo, pela primeira vez. Em 2014 fez valer o rótulo de gênio: marcou quatro vezes, todas na fase de grupos, e foi rumando ao lado de seus companheiros até a final da Copa. A Alemanha, porém, foi mais uma vez uma pedra no sapato. Derrota na prorrogação. Ficou o gosto de “quero mais”, mas a que custo?
Lionel não conseguia ter o sucesso coletivo que tinha no Barça e era acusado, pelos argentinos, de ser espanhol. A paciência teve limite em 2016. Ao perder a final da Copa América para o Chile, inclusive desperdiçando pênalti nas cobranças decisivas ao fim do jogo, anunciou sua aposentadoria. Estava cansado. Cansado de cobranças, vexames e desapontamentos.
Não aguentou nem três meses longe de uma de suas maiores paixões, a fim de realizar seu maior sonho de vida: ser campeão do mundo pela sua real terra natal. Salvou a Argentina de uma eliminação precoce e vexatória nas Eliminatórias de 2017, mas parou cedo na Copa.
Individualmente, não tinha o que se falar do camisa 10. A bola colava na canhota mágica e os espaços nas entrelinhas simplesmente surgiam. Era Messi, sem mais. Mas a Argentina, apesar de entregar emoções, parou nas oitavas da Copa de 2018 contra a futura campeã França.
Já tinha 35 anos de idade e sete Bolas de Ouro quando foi para aquela que, a seres humanos, seria a última Copa em alto nível. Isso, mais tarde, seria desmentido.
Agora sob o comando do ex-companheiro de seleção Scaloni, viu sua seleção resgatar a identidade raçuda e jogar em favor de si. Pela primeira vez em sua carreira profissional, viu a Argentina ser a Argentina em uma Copa do Mundo. E mostrou sua importância.
Diferentemente das outras Copas, Messi parecia mais motivado do que nunca. Estava endiabrado. Estava com sede de vitória. Estava pronto para ser Lionel Messi. Marcou sete gols e deu três assistências. Teve a primeira grande atuação em um Mundial e foi respondido a altura. Craque da competição, vice-artilheiro e campeão. Parecia um fim digno àquele que, enfim, tinha convencido os argentinos que era um deles.
Mas cabia mais. Quatro anos depois, aos 39 anos, e já com oito Bolas de Ouro, foi para sua última Copa, mesmo que uma eventual sétima disputa não fosse descartada. Teve, na América do Norte, a sua melhor atuação em um Mundial, mesmo quase “quarentão”.
Brilhava dentro de campo. Brigava por todas as bolas. Corria por si e pelos companheiros. Jogava pelos 46 milhões de hermanos. Mas, principalmente, pelo seu pai, que estava de cama e suplicava para que o astro jogasse mais uma vez a Copa do Mundo.
Era, de fato, um torcedor dentro de campo. Nunca se viu igual pela Argentina. Há quem diga, inclusive, que nunca se viu igual em sua carreira. Não é nenhum absurdo. Messi não jogou com os pés, jogou com o coração. Jogou pelo seu maior ídolo, que veio a falecer em agosto, já após o fim do torneio.
Foi o cara do Mundial. Carregou a Argentina aos trancos e barrancos até a final. Foi decisivo, foi gênio, foi craque, foi Lionel Messi. Marcou oito gols. Se isolou como o maior artilheiro das Copas, mas depois foi ultrapassado por Mbappé. De nada, porém, importava ao seu ver. Queria, mais que tudo no mundo, o título, para dar uma alegria final ao seu pai. Não conseguiu.
Na final, a Argentina esbarrou em uma Espanha que, mesmo sem um grande craque tal Lionel, era uma equipe melhor. Se doou como pôde, mas não conseguiu o bicampeonato. Melhor aos espanhóis, que venceram na prorrogação com gol de Ferran Torres.
Mais marcantes que os lances de pura genialidade, literalmente calando a boca daqueles que falavam que Messi não aguentaria mais uma Copa e que já não tinha nível por jogar nos Estados Unidos, ficaram marcados os choros do astro. Aos fins dos jogos, chorava de emoção por seu pai. Mas não conseguiu o título, apesar da dedicação de outro planeta.
Lionel anunciou sua aposentadoria da seleção argentina para o dia 6 de outubro de 2026. E a AFA preparou uma festa ao seu nível. Monumental de Núñez lotado, antigos companheiros e mais destaque. Marcou uma vez e deu duas assistências em sua última dança pela equipe que defendeu com mais amor em sua vida. Colocou um ponto final em sua história mais linda dentro do futebol.
Foram 126 gols, 67 assistências e quatro títulos em 208 jogos. Mais de 20 anos dedicados à seleção. Bateu a maioria dos recordes possíveis, e até os impossíveis, dentro da seleção. Se tornou o atleta com mais jogos e o maior artilheiro. Mostrou, com sua canhota abençoada, com sua dedicação interminável e sua fé inabalável, que era argentino. Mostrou que Messi também poderia ser Messi na seleção argentina.
Foi o mais próximo que os argentinos chegaram de Deus. Foi o mais próximo que vi de Deus. Foi extraterrestre. Foi gênio. Foi magnífico. Foi absurdo. No fim das contas, foi Lionel Messi.



