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O novo, ou antigo, normal: o futebol brasileiro sem as bets

Um dos assuntos que mais rodou o cenário futebolístico do Brasil foi a proibição das bets. Por determinação do governo federal, a operação de apostas de quota fixa, cassinos online e jogos virtuais no país foi proibida em uma medida temporária.

Provavelmente o setor mais atingido pela medida foi o de clubes de futebol. Por exemplo, 14 dos 20 times do Brasileirão tinham casa de aposta como patrocinadores másters (maior cota de pagamento que estampa o local central na frente da camiseta).

O patrocínio de casas de apostas se tornou uma marca registrada do esporte brasileiro nesta década. Todas as 20 equipes presentes na Série A do Campeonato Brasileiro já receberam dinheiros provenientes de bets, mostrando, assim, uma dependência dessa fonte de renda.

As bets geralmente são as que mais pagam aos clubes, muito porque encontram no esporte o público-alvo ideal, gerando uma relação de altíssimo ganho financeiro para os clubes e de aquisição rápida de clientes para as empresas.

Os valores oferecidos pelas casas de aposta superam, de longe, os patrocínios de outros ramos. Os valores oferecidos pelas bets superaram de longe os de outros setores (como bancos, varejo e alimentos). Em 2025, esses patrocínios chegaram à marca de R$1,1 bilhão no Brasileirão, com contratos que chegam a mais de R$ 100 milhões por ano para clubes como Flamengo, São Paulo e Corinthians.

No mesmo ano, cerca de 34% da receita das principais equipes do Brasil vieram de casas de apostas, segundo dados da Sports Value. Em 2026, o investimento do segmento também ultrapassou a casa do R$ 1 bilhão. Na Série B, a adesão também é significativa: 13 dos 20 participantes possuíam acordos com casas de aposta.

Com altos custos e orçamentos apertados no futebol brasileiro, o dinheiro das bets ajuda a equilibrar as contas, cobrir folhas de pagamento e viabilizar a contratação de grandes jogadores. Não que a origem desse dinheiro seja válida e honesta, mas é o dinheiro que mantém o alto nível esportivo e os contratos superfaturados que se tornaram rotina no futebol brasileiro.

Para as casas de apostas, estampar a marca na camisa ou no estádio significa atingir o torcedor no exato momento em que ele está assistindo a uma partida, o momento ideal para incentivar o uso da plataforma de apostas em tempo real. É uma estratégia de combinar o público alvo ideal com o momento ideal, unindo cores, influenciadores e a paixão, ou o clube de futebol.

Com uma parcela expressiva da população brasileira ativa em apostas esportivas, o futebol se tornou a principal vitrine para essas empresas consolidarem suas marcas em um mercado extremamente competitivo. E os clubes aproveitam o meio para aumentar cada vez mais os gastos, mas, também, buscar reduzir as dívidas, que têm se tornado uma preocupação real no cenário brasileiro.

Para se ter uma ideia, Corinthians, Atlético Mineiro, São Paulo e Botafogo ultrapassam os R$2 bilhões em dívidas absolutas. Cruzeiro, Inter, Santos e Vasco passam de R$1 bilhão. E praticamente todos os demais clubes da elite brasileira de futebol devem centenas de milhões de reais.

Quando se tornou costume?

As bets começaram a “cavar” seus espaços no futebol brasileiro em 2019. Aos poucos, as casas de apostas se tornaram mais comuns nas camisas das equipes brasileiras e também passaram a patrocinar campeonatos. O Brasileirão e a Copa do Brasil, por exemplo, foram patrocinados pela Betano por algum tempo, com a proibição desfazendo a parceria em setembro deste ano.

Os resultados dentro das quatro linhas foram exponenciais. O futebol brasileiro passou a ser uma potência ainda maior do que sempre foi no cenário sul-americano. Não à toa que, dos 14 finalistas da Libertadores desde então, apenas dois foram estrangeiros. Antes de 2019, equipes argentinas e uruguaias tinham mais força no cenário, enquanto os brasileiros não eram tão dominantes.

O Brasil passou a receber cada vez mais craques do futebol mundial. Tanto nomes brasileiros, como Neymar, Thiago Silva, Lucas Paquetá e Hulk, atletas que marcaram época na seleção brasileira, como estrangeiros, tais quais Memphis Depay, Luis Suárez, James Rodríguez, Dimitri Payet e mais.

Os contratos dos atletas cresceram de forma exponencial, com as equipes turbinando os pagamentos por conta dos patrocínios das casas de aposta. Dez atletas, incluindo Neymar, Arrascaeta, Andreas Pereira e Gerson, recebem mais de R$2 milhões por mês apenas de salários.

Com a queda de outros tipos de patrocinadores tradicionais (como estatais e empresas de outros setores afetadas por crises econômicas), as bets ocuparam o vácuo e permitiram que os clubes viabilizassem folhas salariais e contratações. As equipes se acostumaram com os altos valores recebidos.

Porém, os patrocínios das casas de aposta gerou alguns problemas. A origem do dinheiro era duvidosa, com a população “pagando o preço” com altos índices de endividamento em detrimento do vício em apostas e da compulsão.

Outra coisa, agora dentro do aspecto desportivo, foi a dependência criada pelas equipes. Tanto que, hoje com a medida temporária da proibição, dúvidas rondam o cenário esportivo do país a respeito do futuro das equipes. Se tornou costume receber dinheiro sujo das bets.

A dependência excessiva criou uma vulnerabilidade estrutural nos clubes: o risco de “bolha”. Com discussões e medidas governamentais mais restritivas e proibições voltadas ao setor para conter o endividamento da população, os clubes enfrentam a ameaça de perdas severas de orçamento e problemas com o fluxo de caixa (incluindo a antecipação de recebíveis bancários baseada nesses contratos).

Reflexos batem na porta

A perda de patrocínios deve trazer problemas para as equipes brasileiras num futuro próximo. Equipes como São Paulo, Corinthians e Inter, que ainda não aderiram ao projeto de SAF, convivem com proibições de contratações por transfer ban. Agora, sem essa renda das casas de aposta, que ajudavam as equipes a conterem algumas dívidas, essa situação deve piorar.

O Flamengo estima perdas totais de R$ 400 milhões a R$ 430 milhões (afetando também esportes olímpicos), o Corinthians contava com R$ 150 milhões da Esportes da Sorte e o São Paulo com R$ 113 milhões da Superbet. As maiores “dores de cabeça”, porém, devem vir nas equipes das divisões inferiores.

É um raciocínio lógico. Se as equipes menores já fechavam o ano no vermelho, com mais pagamentos do que receitas, com os altos patrocínios de bets, sem eles, a situação deve ficar ainda pior. E essas agremiações não têm a mesma força que os grandes já citados para manterem o desempenho dentro das quatro linhas.

“O futebol brasileiro vai perder, no ano que vem, alguma coisa em torno de R$ 2,5 bilhões. Isso traria impactos desastrosos para o Flamengo como um todo, não só no futebol, mas também nos esportes olímpicos. Sem um preparo prévio, é absolutamente impossível que você consiga estancar essa sangria”, disse Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, em entrevista à CNN Brasil.

Em um movimento que rendeu críticas dos torcedores, todos os clubes brasileiros que tinham acordos com as bets foram a público para manifestar o descontentamento com a medida governamental. Muito, também, por pressão dos próprios patrocinadores.

Os impactos têm sido imediatos. Enquanto alguns clubes contam com apoio estadual para diminuírem o prejuízo, como foram os casos dos mineiros Cruzeiro e Atlético, outros buscam patrocinadores alternativos e até adiantamento de receitas para que a bomba não exploda ainda neste ano de 2026.

Fora das quatro linhas, a proibição pode “incentivar” a população a adotar caminhos clandestinos para manter o vício. Especialistas e dirigentes alertam que a proibição pode fazer os apostadores migrar em massa para sites ilegais e não regulados, que continuam operando sem controle e sem arrecadação de impostos.

O futuro ainda é incerto para as equipes brasileiras. Não se sabe, também, se a medida será definitiva. Mas os clubes já se projetam para o que seria desastroso em questão de receitas nos anos futuros. E, certamente, o futebol brasileiro terá de se readaptar a algo que, infelizmente, se tornou comum nos últimos anos.

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João Vitor Segura
Jornalista pelo portal ogol.com.br nos "finalmentes" da graduação pela UNESP. Futebol é vida, e ser defensivo é recurso.
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