Que jogo foi este entre Portugal e Croácia, não foi? Uma vitória emocionante por 2-1, com golo de Cristiano, 2 golos anulados e, claro, o golo anulado à Croácia no último minuto.
Mas vamos além do resultado. O verdadeiro protagonista da noite não trazia chuteiras calçadas — estava dentro da própria bola.
A Trionda entra em campo (literalmente)
A Trionda, bola oficial do Mundial, tem um sensor IMU embutido numa das suas camadas internas. É capaz de detetar microcontactos e traduzi-los, na transmissão, num gráfico que lembra um batimento cardíaco. No lance que anulou o golo de Gvardiol, foi exatamente esse sensor — e não o olho humano, nem a câmara de repetição — quem decidiu a eliminação da Croácia.
Segundo dados da própria FIFA, ficou comprovado que o primeiro toque no lance foi de Matanović, e não de Renato Veiga, como pareceu a olho nu. Este pormenor, imperceptível para praticamente qualquer espectador, foi suficiente para caracterizar o fora de jogo de Pašalić e anular o que seria o empate croata nos descontos.
Precisão ou excesso?
Eis o problema: a tecnologia não falhou. Os dados são consistentes, o protocolo foi seguido, o árbitro Espen Eskas fez exatamente o que devia fazer com a informação disponível. E, ainda assim, fica uma sensação de desconforto.
Não é a primeira vez que o futebol troca a subjetividade humana por uma precisão milimétrica que a própria audiência não consegue ver. A diferença é que, agora, a bola passou a ser juiz. E um juiz que ninguém vê trabalhar.
A FIFA defende que o sensor oferece “um nível de segurança sem precedentes” para decisões rápidas. Do ponto de vista técnico, é inegável. Do ponto de vista emocional — daquele grito preso na garganta de milhões de croatas nos descontos — a coisa é bem mais complicada.
O golo que também caiu
Vale lembrar: não foi só a Croácia que perdeu um golo para o VAR nessa noite. O próprio Cristiano teve um remate anulado por fora de jogo antes de garantir o seu primeiro golo em eliminatórias de Mundial, de grande penalidade. A diferença é que aquele lance qualquer adepto consegue julgar num ecrã de telemóvel. O da Croácia, não.
E é nesse contraste que mora o verdadeiro debate: a tecnologia está certa, mas será que o futebol está preparado para confiar em decisões que a própria claque não consegue verificar com os próprios olhos?
Portugal está nos oitavos-de-final. A Croácia está em casa. E o futebol, gostando-se ou não, acabou de dar mais um passo rumo a um jogo decidido por sensores.



